Resenha: O Zoológico de Vidro (Teatro)
25 fevereiro, 2009 por Cris Urbinatti
É uma pena que montagens teatrais sejam efêmeras. Essa é a magia e a tristeza de uma arte orgânica e viva como o teatro. Lamento ter perdido oportunidades de ver A Máquina, de João Falcão, que apresentou interpretações inesquecíveis de Lázaro Ramos, Wagner Moura, Vladimir Brichta e Gustavo Falcão; ou Romeu e Julieta, com o Grupo Galpão, de MG, assim como algumas outras. Mas agradeço ter presenciado obras como Os Sete Afluentes do Rio Ota, Alice Através do Espelho (Grupo Armazém, do RJ), Paraíso Perdido, Livro de Jó e Apocalipse (essas 3 últimas do Grupo Vertigem), Perdoa-me por me traíres e Cruzada das Crianças (ambas do Círiculo dos Comediantes), ou ainda Crepúsculo, com direção de Maurício Marques.
Essas obras que citei são algumas das peças que mais me permitiram vivenciar e ter uma experiência única com a arte que sobrevive há séculos, mesmo num tempo em que altas tecnologias se sobrepõe ao trabalho quase manufaturado que nós atores adoramos criar. Mesmo que quiséssemos manter a memória destas obras, uma peça filmada nunca possui a qualidade necessária para perpetuar sua história, pois é uma magia que acontece ao vivo entre platéia e artistas. Raramente quando é filmada continua mantendo fidelidade ao que é de fato.
Nesta sexta-feira última, pude ter mais uma dessas experiências ao decidir ver O Zoológico de Vidro no teatro do Sesc Anchieta, em São Paulo. O texto é de Tenessee Williams, um dramaturgo americano que escreveu quase 80 peças ao longo de sua carreira e que, depois de Shakespeare, foi o dramaturgo que mais teve seus textos adaptados para o cinema. Em O Zoológico de Vidro, conta a história de uma mãe, Amanda Wingfield, que convive com seus dois filhos, Laura uma garota tímida e “aleijada” que não consegue fazer nada na vida por vergonha do mundo e seu irmão, Tom, que trabalha numa fábrica de sapatos, mas sonha criar asas para um mundo bem distante e diferente no qual vive e se sente aprisionado. O que Amanda mais deseja é casar sua filha e insiste para que Tom ajude a encontrar um pretendente para a garota. Todos querem asas para voar mais e mais alto, mas todos estão presos neste zoológico frágil e belo que são as emoções com as quais têm que conviver. A esperança está na chegada de Jim O´Connor para um jantar, mas ele apenas faz com que essas angústias venham à tona. Tennessee Williams escreve isso numa época em que as pessoas passaram por uma guerra mundial. Na obra, delicada e intensa, essa família tenta sobreviver as suas angústias e necessidades, o que as leva o tempo todo a embates familiares desconcertantes. O que não é dito, as entrelinhas são sua riqueza.

A direção de Ulysses Cruz capta essa essência com maestria, tudo nesta montagem é de uma primazia deliciosa. Direção sensível, sonoplastia criativa e completamente envolvida com o universo dos personagens e das situações. As interpretações dos quatro atores uma obra de arte. Kássia Kiss há anos nos presenteia com suas criações na TV e no cinema, mas a vi pela primeira vez nos palcos com esta montagem e é de fato uma das melhores atrizes que nós temos; Kiko Mascarenhas, que fez diversos trabalhos na TV, surpreende com uma interpretação bem humorada e também profunda de Tom Wingfield. Karen Coelho é linda em cena, acompanhamos sua trajetória e sua interpretação de Laura Wingfield e é adorável vê-la no palco; conduz sua personagem com um cuidado delicado e precioso, o que me fez acreditar a todo instante que Laura seja uma das peças de seu zoológico de vidro. Por fim Erom Cordeiro, que tem um papel difícil na peça, pois entra depois de uma hora quando todos já estão aquecidos e mesmo assim, interage com os outros harmoniosamente. Mérito dos atores e mérito da direção de Ulysses Cruz.
A movimentação dos atores é praticamente uma dança, todos os movimentos e ações são fluídos e de uma leveza inacreditáveis. Eles parecem flutuar no palco, com uma disponibilidade corporal cada vez mais difícil de encontrar nos atores. Fico agradecida quando vejo uma obra como esta, cada vez mais rara, num mundo onde as celebridades protagonizam o cenário artístico e transformam este título uma prioridade. Bom ver que ainda existem aqueles que compreendem o ser artista e fazem juz ao verdadeiro sentido desta profissão, onde somos um meio de transformação, aqueles que se sentam com a morte no Sétimo Selo (Ingmar Bergman).
Para quem ama a arte, esta peça é mais do que recomendada, obrigatória!
Boa diversão…
* Imagens tiradas do site O Globo e divulgação do Sesc.













Cris, que bom que nossa montagem tocou você. Obrigado por suas palavras e pelo olhar sensível e atento para nosso trabalho. Bj pra vc do Kiko Mascarenhas
Saí do teatro extasiada! Por mais bem escrita que esteja a crítica, nenhuma palavra consegue traduzir os sentimentos trazidos por cada personagem. A interpretação dos atores é fantástica. Não dá para acreditar que Karen Coelho não é manca. A angústia e inquietes do personagem de Kiko passaram para minhas pernsas que não conseguiam para de balançar toda vez que ele falava. Erom Cordeiro apesar de ter gerado muita raiva nos momentos finais de sua apresentação , quando saiu do camarim me fez pensar “será que ele casa comigo?”. E Cássia, bom, Cássia pra mim tornou-se uma unicórnia!
Abraços.