Os Quadrinhos Através dos Tempos – 3ª Parte
10 junho, 2009 por Willian Correa
Os quadrinhos de super-heróis não foram sempre os mesmos. Conforme devem se lembrar pela rica explanação de nosso redator Fábio nos dois posts anteriores, por fazerem parte do contexto histórico que os rodeia, é praticamente impossível ficarem isolados de fatores importantes da época. Cada período traz consigo características marcantes e peculiares, que naquele dado momento são quase imperceptíveis. Só após a passagem do tempo, ao olharmos para trás, é que percebemos as atitudes e hábitos de uma época passada.
Isso fica bem claro quando lemos uma aventura de um período anterior ao atual, em que podemos perceber as mudanças de paradigmas. Por isso mesmo até que os quadrinhos norte-americanos de aventuras de super-heróis foram divididos em eras, pois cada uma dela traz consigo características em comum que as permitem serem agrupadas.
Ao ler aventuras de eras distintas, podemos claramente discerni-las, porém até hoje é muito complicado precisar quais edições ou estórias determinam o fim de uma era e o início de outra. Isso ainda é motivo de calorosas discussões entre estudiosos e fãs. Há vários consensos, como o surgimento de alguns heróis ou a publicação de determinadas revistas, e é este ponto que esta série de posts se propôs a tratar.
Apenas para relembrar, tratamos da Era de Ouro, cujo pontapé inicial fora a publicação de Action Comics #1, em 1938, que trouxe a primeira aparição do Superman. A novidade dera tão certo que personagens como Batman, Mulher-Maravilha, Capitão América, Flash, Lanterna Verde e Tocha Humana eram recebidos com grande interesse e avidez pelos leitores. Porém, com o fim da 2a Guerra Mundial o interesse por super-heróis caiu, e quando aventuras de terror, faroeste, suspense e romance começaram a cair no gosto do público, o livro “Sedução do Inocente“, do psiquiatra Frederic Wertham, tornou-se símbolo do combate aos quadrinhos em nome da moral e dos bons costumes, culminando com a criação da Comics Code Authority (CCA), que impunha severa censura aos gibis. Para muitos, esse é o marco do fim da Era de Ouro.
Já a Era de Prata, que perdurou nos anos 50 e 60, foi a época do fantástico baseado na ficção científica. A corrida espacial e armamentista entre EUA e URSS serviu de grande inspiração para prodigiosos autores, como Julius Schwartz e Stan Lee. A DC Comics reformulara muitos de seus ícones, como Lanterna Verde, Flash (dando a estes novos uniformes, origens e identidades) e Sociedade da Justiça, (agora se tornando Liga da Justiça), enquanto a Marvel inovava com um novo panteão de heróis, mais humanos e sujeitos a erros, com uma cronologia coesa e interligada. Por isso mesmo há a discussão sobre qual seria o ponto que demarcaria o início da Era de Prata: seria o surgimento do Caçador de Marte em Detective Comics #255 de 1955, do Flash Barry Allen em Showcase #4 de 1956, ou do Quarteto Fantástico em Fantastic Four #1 em 1961? Seja qual for a resposta, estas três edições explicitam bem o sentimento de uma nação naquele específico momento da história, e trazem as marcas desta era que se aparentemente mostrava-se ingênua, na verdade explicitava todo o poderio imaginativo dos autores que tinham que criar amarrados pela CCA.
Bem, com todo este recordatório, estamos prontos para a era seguinte, vamos lá?
A Era de Bronze
Se Julius Schwartz e Stan Lee foram os responsáveis pelo renascer dos super-heróis nos quadrinhos na Era de Prata, foram também os arquitetos do seu fim, fundando as bases para a era seguinte, a Era de Bronze, no final dos anos 60 e começo dos 70.
Enquanto na DC, Schwartz unira-se ao roteirista Denny O’Neil e ao desenhista Neal Adams para devolver o teor sério das estórias do Batman, na Marvel, Lee e o desenhista Jack Kirby conseguiram que o Capitão América, o Homem de Ferro e o Surfista Prateado ganhassem suas revistas próprias pela alta popularidade que alcançavam.
Temas controversos como o uso de drogas, passaram a surgir, como nas aventuras do Homem-Aranha, em que Harry Osborn se mostra viciado, ao mesmo tempo em que isso ocorria na viagem pelo país de Hal Jordan e Oliver Queen, em que descobrem o mesmo problema com Ricardito.
Mas e o marco inicial da Era de Bronze, qual seria? Isso também é motivo de discussão. Com o afrouxamento da CCA, como vimos nos temas complicados citados acima, a liberdade para criar ressurgiu, o que é marca registrada desta era. Sendo assim, para a maioria o início oficial da Era de Bronze seria em The Amazing Spider-Man #121, que traz a morte de Gwen Stacy pelas mãos do Duende Verde, haja vista a enorme reviravolta na vida do herói, que traz marcas até hoje. Até aquele momento, apenas personagens irrelevantes morriam, e não alguém famosa como Gwen, muito querida dos leitores. Os quadrinhos começavam a se aproximar mais da realidade nua e crua…
A dureza da vida e o poder adolescente também crescia, e isto se refletia nas aventuras dos novos X-Men de Chris Claremont e John Byrne e dos Novos Titãs de Marv Wolfman e George Pérez. Luke Cage ganhava destaque ao representar o movimento negro, enquanto Mestre do Kung Fu e Punho de Ferro aproveitavam a nova onda das séries televisivas de artes marciais; até a Mulher-Maravilha entrara nessa moda e abandonara o uniforme estrelado por um quimono.
E assim as coisas caminharam até os anos 80, em que edições especiais começavam a surgir cada vez mais nas recém-inauguradas comic-shops: Ronin, Camelot 3000 e Monstro do Pântano fizeram sucesso imediato e venderam horrores, o que chamara bastante atenção dos empresários das editoras. Assim, iniciar-se-ia o período das grandes sagas, como Guerras Secretas da Marvel e Crise nas Infinitas Terras da DC. Esta última aliás, tinha uma grande missão: reestruturar o universo ficcional da editora e adequá-lo mais aos novos tempos, assim como ocorria na Marvel.
E após Crise, os quadrinhos nunca mais foram os mesmos: outras obras também surgiram, como O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, e Watchmen de Alan Moore, ambas desconstruindo o mito do super-herói. Estas três são para muitos a representação do fim da Era de Bronze, pois após elas parecia que gibi de herói interessante era aquele que mostrava que a realidade era triste e cruel, e que crossovers (grandes eventos que reuniam vários heróis de títulos diferentes) eram certeza de boas vendas. Estas, aliás, serão grandes características da próxima era que iremos abordar, nos “temíveis anos 90”. Até lá!













Ótimo texto Will! Muito bom mesmo! E como não poderia deixar de ser, vou dar o meu pitaco! hehehe
A fase “bronzeada” dos quadrinhos funcionou como colchão criativo para a década de 80, que considero a melhor. Temos o desfecho da Guerra Fria e o fim de um grande nicho de histórias. Então escrever sobre o quê? Bem, o homem havia pisado na Lua! Em 1978, tivemos Star Wars! Grandes sagas envolvendo o cosmo começaram a ser melhor embasadas.
A profissionalização deste mercado também foi importante. Escritores mais antenados, criativos, conectados com a literatura, produzindo textos ricos, densos e polêmicos. Pra citar apenas um oitentista: Watchmen.
Os quadrinhos seriados também foram agraciados. A dupla John Byrne e Chris Claremont escrevendo o arco de histórias sobre o Clube do Inferno, viagens siderais e a saga da Fênix. O Quarteto Fantástico, também com Byrne… Demolidor, de Mazzucheli e cia limitada!
Pena que todo esse boom criativo se perdeu no mercado ascendente dos anos 90, mas isso fica pra outro dia…
Abs!
Que é isso, amigão, “pitacos” como estes são sempre bem vindos, ainda mais vindos de alguém que manja tanto e é o autor dos posts originais. Ótimas colocações, como sempre pertinentes! Grande abraço!